Tudo Muda

Que saudade daquele tempo…
À noitinha, na borda da piscina
Olhando as estrelas, sentindo o cheiro da grama fresca
E ouvindo uma música melancólica ao fundo.

Só existia leveza em minha alma
Minha mãe me esperava em casa com o jantar
E o tempo para mim parecia não ter fim.
Tudo púbere…a cidade inteira parecia ter a minha idade.
Eu não sabia que os sonhos acabavam
Que as pessoas queridas morriam de repente
Que somos obrigados
Que tudo é vorazmente arrastado sem controle.

Naquela noite,
Deitada com as mãos espalmadas sob a nuca e vendo as constelações
Eu pensava que os anos eram bons
Era uma época em que eu andava de bicicleta
E não havia perigo na esquina

Eu cantava “Sólo le pido a Dios…
que el futuro no me sea indiferente
E sentia uma força dentro de mim mesma!
A natureza estava em seu ápice de atividade
E em todas as minhas células exercitava
Aquela certeza que os jovens tem
De que são de alguma forma especiais
De que as possibilidades iriam me amparar com ternura
Como o fazem os braços maternos…
A propósito, meus problemas se limitavam aos sermões de mamãe
Ou a traduzir livremente “angie”, apenas a escutando várias e várias vezes.

Mas aquilo tudo ficou ali nos meus 16 anos!

O tempo passa!!

Mercedes Sosa também sempre me causará uma nostalgia profunda
Era sua voz que ressoava ao fundo naquela noite estrelada à borda da piscina do pequeno clube da minha cidade.

E hoje, quando lá retorno
Mesmo que seja em uma noite estrelada
Mesmo que “Maria, Maria” seja o som ao fundo
Por volta das 19 horas
Certamente não haverá mais a cor que coloria outrora.

Meu coração está marcado
Meus sonhos modificados
O semblante de meus pais tão cansados
As ruas da cidade tão distorcidas…

Ao mesmo tempo
Com certo desespero,
Me agarro à realidade presente
Com uma vontade profana de que ela não me escape, mais do que já houve
Não quero perder o que me resta!!
Mas parece um destino inevitável…

Como cantava La Negra:

Cambia lo superficial

Cambia también lo profundo

Cambia el modo de pensar

Cambia todo en este mundo…

 

Minha Necessidade

Quando tu voltas?
Que hora retornas?
Saudade não se conforma!
Em que instante, por que rotas
Tu te devolves a mim?

Por favor, mais rápido!
Não sinto a vida,
Quanto tu não estás,
A angústia me eleva
A um desespero voraz.

A nuvem sublima,
O tempo desnovela
O espaço que não nos vemos.
Meu Deus! Uma querela!

A infinitude de tua presença
Não se compara a qualquer outro aconchego
E quando meu mundo se abisma
Só preciso de teu beijo.

Meu Anjo de Avô

avô-e-neto

Meu avô tinha os passos embalados
Por uma alegria toda especial
Usava chapéu de palha e camisa listrada
Meio aberta, desbotada,
Era franzino e de aura angelical.

Quanta saudade ainda permanece
Da minha infância às suas histórias regada
Dos doces de leite que trazia após suas viagens
Das frutas que pra mim colhia
Das suas risadas.

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