Das Lembranças

É claro que a gente lembra
Daquelas músicas que ouvíamos junto
Próximo a algum cheiro de primavera
Eu sabia que as coisas mudariam
E temia o que a lua poderia trazer
Logo ao anoitecer
Naquele mesmo dia.

E como foram-se os anos!
Todas as lembranças se propulsaram
Juntaram-se a outras e também mudaram
Minha forma de pensar
Todo o sentimento vai se transformando
E onde quer que nos encontremos
Cabe a nossos passos serem mais fiéis
A tudo que o um dia planejamos.

Aqueles sorrisos que tivemos
Estão ainda em algum lugar?
Escritos, como promessas que se eternizaram…
O coração puro saberá perdoar?
Será que em outra vida nos reencontraremos?
“Muda, tudo muda…”
Será que nos reconheceremos?
Por mais que eu tente avançar
As correntes e espinhos estão sempre espalhados
Por onde eu tento trilhar.

Naquela hora primeira,
Onde meu amor me lembra quem eu sou,
Temo perder a glória que um dia esteve
Espalhada por todo o meu ser.

Ainda que não me seja permitido saber
Os rumores do futuro
Já avisto a queda do muro
Logo ali, ao crepusculecer.

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Dessa Era Estranha e Crua

Meu povo é tão distante
E o vazio continua latente
Talvez o que a gente sente
Seja mesmo tão diferente.

A graça da vida às vezes esmaece.
Procuro o fino brilhante
Sobre o qual ouvi cantarem
Mas, o amor perdeu seu rebanho
Cedendo a algum tipo de chantagem
Dessa era de tecnologia esquizofrênica
Que deixa esses meninos tão sozinhos:
Eles procuram nas coisas artificiais
A simulação perfeita de sonhos
Que me parecem tão banais.

Meu povo permanece tão distante
E o vazio reside aqui, latente
Talvez o que a gente sente
Seja cada vez mais diferente.

Mas não difere assim nosso temor
Quando a noite subsiste
Encarando a vida triste
No retorno do labor…

E nosso filho ainda não chegou
Da rua perigosa e escura
Assim como pulsa o sangue morno
Também pulsa o olhar materno aflito

-Libera esse nosso grito
Aqui, preso na garganta
Porque todo pássaro que canta
É sinônimo de liberdade
Ainda que da brevidade
Lhe seja tão prisioneiro

Sim, meu povo está cada vez mais distante
Mais enlaçado em virtuais correntes
Mas, no fundo, sinto que a gente
Não é assim tão diferente.

Dos Desejos e Realidade

O que eu faço para ser feliz
No lugar onde eu quiser
Cortando o cabelo ou com ele comprido
E me ser permitido
A aurora boreal conhecer?

O que brota do amanhecer
Ainda é um brilho encardido
Mas eu quero ser o cupido
Da nova era, para transparecer
Nessa vida, algo bem explêndido
Rosnando de tanta inquietude,
Parturiente, inflado, amiúde
Soprando aquele inverno translúcido
Que a lua exala ao aparecer.

Pode um dia se saber
Que eu desejei ter tudo
Porém, o que não me consola
É o temor de perder os sonhos
Que são meu mundo.

Porque a liberdade existe bem aí,
Onde se permite:
“No vagar das horas que alguém nos tirar,
Façamos delas nosso alpiste”.

 

Dos Sentimentos que Vêm e(m) Vão

Quem me destinou esta tristeza,
Áspera e amarga,
Que impacta minha garganta?
Quem a deixou passar pela porta da minha jovem idade?

Qual dos meus “eus” fracassou
E em que ponto?
Não era astúcia o que eu via e desejava?
Não era, por ventura,
Um verde vivo, um lago
E pássaros assobiando
O que em minha volta existia?

Por que o pássaro agora está enjaulado?
Por que não vê a luz do sol?
Por que suas marcas de cansaço aparecem
E as lágrimas não esgotam a fonte?

Era também ternura e felicidade o que encantava
Enquanto ainda se acreditava no mundo colorido.

Mas é que as coisas foram mudando…
As estações perderam o sentido…
As novéis conquistas férteis
Possuem efeito tão efêmero.

E o sentimento?
E a acreditação?
A força…onde estão?

O que ora se busca,
Outrora esteve tão perto.

Ou talvez não…

Era apenas uma inocência em vão
Carregada de ilusão.

Ainda assim, era feliz.

 

O Que nós Temos

A vida escorreita faz certas manobras
No espaço e tempo
Em laços famintos
De relacionamentos

Faz aqueles momentos
Que ensejam lágrimas de felicidade
E elas se derramam mais ainda
Quando nos damos conta
De que o que queríamos de verdade
Era que o tempo parasse ali…
Ou que se repetisse conforme a vontade…
Porém, somos impulsionados:
Adiante, sempre!
Pra frente!

Eis que tenho medo do tempo
E de toda a sua grandiosa liberdade.
Porque o tempo é o deus mais cruel que existe
É tão grande a sua maldade
Que ele não se curva
Não sente piedade de quem quer que seja.

Talvez seja por isso o mais justo
Porque não discrimina
Mas também não avisa pra ter coragem
Somente acontece.
E quem não se adapta, padece…
Em uma fina camada de ferrugem.