Dos Desejos e Realidade

existir

O que eu faço para ser feliz
No lugar onde eu quiser
Cortando o cabelo ou com ele comprido
E me ser permitido
A aurora boreal conhecer?

O que brota do amanhecer
Ainda é um brilho encardido
Mas eu quero ser o cupido
Da nova era, para transparecer
Nessa vida, algo bem explêndido
Rosnando de tanta inquietude,
Parturiente, inflado, amiúde
Soprando aquele inverno translúcido
Que a lua exala ao aparecer.

Pode um dia se saber
Que eu desejei ter tudo
Porém, o que não me consola
É o temor de perder os sonhos
Que são meu mundo.

Porque a liberdade existe bem aí,
Onde se permite:
“No vagar das horas que alguém nos tirar,
Façamos delas nosso alpiste”.

 

Tudo Muda

Que saudade daquele tempo…
À noitinha, na borda da piscina
Olhando as estrelas, sentindo o cheiro da grama fresca
E ouvindo uma música melancólica ao fundo.

Só existia leveza em minha alma
Minha mãe me esperava em casa com o jantar
E o tempo para mim parecia não ter fim.
Tudo púbere…a cidade inteira parecia ter a minha idade.
Eu não sabia que os sonhos acabavam
Que as pessoas queridas morriam de repente
Que somos obrigados
Que tudo é vorazmente arrastado sem controle.

Naquela noite,
Deitada com as mãos espalmadas sob a nuca e vendo as constelações
Eu pensava que os anos eram bons
Era uma época em que eu andava de bicicleta
E não havia perigo na esquina

Eu cantava “Sólo le pido a Dios…
que el futuro no me sea indiferente
E sentia uma força dentro de mim mesma!
A natureza estava em seu ápice de atividade
E em todas as minhas células exercitava
Aquela certeza que os jovens tem
De que são de alguma forma especiais
De que as possibilidades iriam me amparar com ternura
Como o fazem os braços maternos…
A propósito, meus problemas se limitavam aos sermões de mamãe
Ou a traduzir livremente “angie”, apenas a escutando várias e várias vezes.

Mas aquilo tudo ficou ali nos meus 16 anos!

O tempo passa!!

Mercedes Sosa também sempre me causará uma nostalgia profunda
Era sua voz que ressoava ao fundo naquela noite estrelada à borda da piscina do pequeno clube da minha cidade.

E hoje, quando lá retorno
Mesmo que seja em uma noite estrelada
Mesmo que “Maria, Maria” seja o som ao fundo
Por volta das 19 horas
Certamente não haverá mais a cor que coloria outrora.

Meu coração está marcado
Meus sonhos modificados
O semblante de meus pais tão cansados
As ruas da cidade tão distorcidas…

Ao mesmo tempo
Com certo desespero,
Me agarro à realidade presente
Com uma vontade profana de que ela não me escape, mais do que já houve
Não quero perder o que me resta!!
Mas parece um destino inevitável…

Como cantava La Negra:

Cambia lo superficial

Cambia también lo profundo

Cambia el modo de pensar

Cambia todo en este mundo…