Poema de Perdição

Do teu fino corpo profano
Protraem-se as flores que sonhei
Será que gozas tu de prazeres
Pela felicidade que a mim neguei?

Teu beijo não posso provar
Tampouco escutas meus prantos
Por que, precioso anjo
Deleita-te ver-me aos mortos?

Até teu perfume é, a mim, pecado
E quantos pecados povoam por noite!
Com o amor que não me foi dado
Ao lamento pela falta de sorte

Nem cretino, austero ou amargo
Não julgo o que não foi verdadeiro
Nem enlanguesço à falta de afago

Ou à luz do puramente passageiro
Ah!…Mas e esse desejo longo
De tatear e beber do teu cheiro?

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Valsando a Sorte

Ao sopro que a sorte canta
Estendo-o um longo tapete
Cujo tecido aveludado suporte
O que minh’alma alada suplanta

Nas noites de primavera, quando
Em meu ninho se conclama o sossego
A brisa desperta, me acomodo
No bálsamo da ventura me entrego

Foi o êxito bêbado do sortilégio
Que me sussurrou essa tal quimera
Ao arrepio uivado, tenro e frágil
Que o meu destino escolhera.

E pelo embalo desse som baixinho
Escorreguam-se outros fadários
Valsantes, feito rebanho
Destemidos, feito os templários.

Dos Sentimentos Interrompidos

Quantas dessas histórias mal contadas
Sobre amores que não deram certo!
Aquela troca de olhares, o sorriso,
O toque, da pele quase perto…

Foram tantas manhãs, assim, propensas
Ao desabrochar de um novo sentir
Pairando o perfume sob suspeita
Ao lado, em frente ou em devenir

Quem disse que elas não se fizeram
Do modo como deviam ser? breve…
Não exatamente em vão. Contidas
Tal como vulcão que se absteve

Sensações tênues e insinuantes
São, por elas mesmas, completas
Nem tudo ficou destinado a ocorrer
Como prenunciavam os profetas.

O sabor prolongado, de um lado,
Do amor firme e verdadeiro.
De outro, flertes torrenciais,
De um relapso fluido e ligeiro.

Todas as paixões são boas, exceto
Quando se precisa delas fugir
Se tornam cruéis e desgrenhadas:
Estas já nascem sem poder existir.

Viagem Repentina

“Memórias ainda não vividas”
Pensei aqui comigo agora
Quanto tempo que não viajo
Por esse mundo afora?

Quero muito passear de férias
Levando comigo quem amo
Sentir a natureza mais de perto
Direito que defendo e proclamo

Mas tudo que vejo em frente
É muito trabalho e cansaço
Não varia muito minha jornada
Sempre pairando em mormaço

Pois o calor de minha cidade
Enlanguesce tanto e sufoca
Que se alguém do sul quisesse
De lugar, faríamos uma troca.

Sim…pois há esses que gostam
De calor, verão e intenso sol
Prefiro o frio, o inverno e lua
E de um aconchego sob o lençol.

Ah! mas também desejo acampar
Numa colina próxima ao vento
Com cheiro de chuva ligeira
E do verde vívido do mato

Correr pelo campo, pés descalços
Escorregando no suave da grama
Que se estende além de onde
A vista atenta se derrama

Também seria de todo agradável
Mergulhar em água cristalina
De um lago secreto e encantado
Que só a nós se destina

Fazer tirolesa, pára-quedismo, trilha
E saltar bem do alto de asa-delta
Cujo vislumbre do ato proporcione
Tudo que a bela paisagem oferta.

Por ora só os pensamentos sobrevoam
Levando-me para um mundo paralelo
Que (todos digitando), com o som das teclas
Eu me retorno e o cancelo.

Uma Xícara de Tarde

O cheiro da tarde genuína
Vem encorpado de sorte
Invadindo a sala pequena,
Aguçando os sulcos da mente

Com um nebuloso frescor
Que a quase todos agrada
Somos guerreiros desse sabor
Enquanto dura a jornada

Ele ruboriza os nossos rostos
E leva insônia a quem tem fé
(Dizem alguns velhos contos)

Então, enquanto a tarde estiver
Estacionada nestes recintos:
Tragam logo o nosso café!

cafe

Soneto do Encanto Maior

Quero saborear da tua presença
E incorporar teu ardente suor
Nas noites quando a insônia é boa
Produzindo-nos intenso amor

Ter teus cabelos sobre meu corpo
Translúcido de enervado calor
Conjugando os beijos apaixonados
Sob a luz de encanto maior

Faz-se travesseiro, meu ombro a você
Aninhando-se suavemente a teu perfume
Como se faz parceiro todo o meu ser

Nesta vida, que do luar se dessume
Como o sentimento pode transcender
E ser, de tudo e de todos, imune.

Inquietude

Essa embriagada sensação de inquietude
Balbucia em meu leito tantas coisas
Tal pássaro aflito que precisa ir pra casa
Voando livre pela natureza.

Mas não contou, a mim, nenhuma certeza
Lutando contra meu coração brando
Aprendi a ter algumas mágoas
E a olhar, entristecida, o passado

Que ecoa uma sonoridade profunda
De saudosismo singelo e arteiro
Quantos dragões destruíram as forças
Que guardei comigo o ano inteiro.

Vejo que pouca coisa se mantém
Quando o futuro ardil subsiste,
A insegurança afeta nosso humor,
Tudo assim confuso e o mundo triste…

Que não me ensinou a arrefecer
Nem me mostrou como ter sorte
E mesmo com a inevitável morte
Talvez ainda um dia hei de viver…

…Sentindo, pela penumbra da noite
Todos nossos beijos famintos e esnobes
Quando o tempo terá em si o bastante
Para sermos quem realmente somos (fortes).