Viagem Repentina

“Memórias ainda não vividas”
Pensei aqui comigo agora
Quanto tempo que não viajo
Por esse mundo afora?

Quero muito passear de férias
Levando comigo quem amo
Sentir a natureza mais de perto
Direito que defendo e proclamo

Mas tudo que vejo em frente
É muito trabalho e cansaço
Não varia muito minha jornada
Sempre pairando em mormaço

Pois o calor de minha cidade
Enlanguesce tanto e sufoca
Que se alguém do sul quisesse
De lugar, faríamos uma troca.

Sim…pois há esses que gostam
De calor, verão e intenso sol
Prefiro o frio, o inverno e lua
E de um aconchego sob o lençol.

Ah! mas também desejo acampar
Numa colina próxima ao vento
Com cheiro de chuva ligeira
E do verde vívido do mato

Correr pelo campo, pés descalços
Escorregando no suave da grama
Que se estende além de onde
A vista atenta se derrama

Também seria de todo agradável
Mergulhar em água cristalina
De um lago secreto e encantado
Que só a nós se destina

Fazer tirolesa, pára-quedismo, trilha
E saltar bem do alto de asa-delta
Cujo vislumbre do ato proporcione
Tudo que a bela paisagem oferta.

Por ora só os pensamentos sobrevoam
Levando-me para um mundo paralelo
Que (todos digitando), com o som das teclas
Eu me retorno e o cancelo.

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Uma Xícara de Tarde

O cheiro da tarde genuína
Vem encorpado de sorte
Invadindo a sala pequena,
Aguçando os sulcos da mente

Com um nebuloso frescor
Que a quase todos agrada
Somos guerreiros desse sabor
Enquanto dura a jornada

Ele ruboriza os nossos rostos
E leva insônia a quem tem fé
(Dizem alguns velhos contos)

Então, enquanto a tarde estiver
Estacionada nestes recintos:
Tragam logo o nosso café!

cafe

Soneto do Encanto Maior

Quero saborear da tua presença
E incorporar teu ardente suor
Nas noites quando a insônia é boa
Produzindo sobre nós intenso amor

Ter teus cabelos sobre meu corpo
Translúcido de enervado calor
Conjugando os beijos apaixonados
Sob a luz de encanto maior

Faz-se travesseiro, meu ombro a você
Aninhando-se suavemente a teu perfume
Como se faz parceiro todo o meu ser

Nesta vida, que do luar se dessume
Como o sentimento pode transcender
E ser, de tudo e de todos, imune.

Inquietude

Essa embriagada sensação de inquietude
Balbucia em meu leito tantas coisas
Tal pássaro aflito que precisa ir pra casa
Voando livre pela natureza.

Mas não contou, a mim, nenhuma certeza
Lutando contra meu coração brando
Aprendi a ter algumas mágoas
E a olhar, entristecida, o passado

Que ecoa uma sonoridade profunda
De saudosismo singelo e arteiro
Quantos dragões destruíram as forças
Que guardei comigo o ano inteiro.

Vejo que pouca coisa se mantém
Quando o futuro ardil subsiste,
A insegurança afeta nosso humor,
Tudo assim confuso e o mundo triste…

Que não me ensinou a arrefecer
Nem me mostrou como ter sorte
E mesmo com a inevitável morte
Talvez ainda um dia hei de viver…

…Sentindo, pela penumbra da noite
Todos nossos beijos famintos e esnobes
Quando o tempo terá em si o bastante
Para sermos quem realmente somos (fortes).

Das Noites Mortas

O que será que brota
Desta misteriosa noite
De intensa lua e silêncio
Polindo os sonhos distantes
Que um tempo atrás eu supus?

A visão rarefeita da realidade
Maquiada, ainda, de pensamentos juvenis
Se chocam com esses cinzentos passos
Do cotidiano sisudo
Que eu nunca quis.

Praguejando, as minhas horas diferem
Das horas marcadas no relógio
Às vezes, salto vorazmente
Em outras, me demoro.

E à noite, principalmente
Que tem seu véu longo estendido
Quando penso que estou em seu início
Rompe-se logo a madrugada
A lua escorrega-se facilmente
Sinto, em meu tempo, uma navalhada.

Passa-se, então, mais uma noite vã
Que de tanta infertilidade, se fez morta
Pairando o torpor à minha porta
Quem sabe, a ele, seja eu anfitriã…

Do Medo de Escuro

O pôr do sol queda-se ao longe
Anunciando a noite desvelada
Os dedos finos, que dela se escondem
Dançam em novo verso de madrugada

Rápidos,  como se passam
As batidas dos nossos corações
Também os dias, uns após os outros
Afinam, nos destinos, novas canções

E tudo, mesmo desconexo, se arranja
Como que em teia, confuso e misturado
As ideias, também como os são
Hão de recolher da ordem um punhado

E da elucidação, que seja crédula
Para que a próxima noite que sobrevém
Faça sentido, e o canto da sereia
Não seja o assombro de ninguém.

Pesadelos

Passando pela vértebra o frio atônito,
Que o medo da solidão lhe sopra,
E um rompante gosto de fel e sangue
Numa imagem que jamais se cumpra.

Era pesadelo inscrito em suor,
Agonia latente em cada pálpebra.
A cama, com pregos afiados
E a casa toda em penumbra.

A cena de terror me fez pulsar
O coração pouco acostumado a emoções
Mas quando o paralisado corpo desperta…

Só nota a presença dos trovões
Infiltrando-se em minha alma, deserta…
…Incrédula, ao nada, a vagar.