Rosa do Deserto

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Quando a última gota de vinho foi saboreada, às vinte e três horas e quarenta e dois minutos, a campainha tocou repentinamente.
O som alto quebrou o silencio angustiante que naquela hora imperava, e a alma do rapaz sentado com os olhos fitados no horizonte avistando a janela, quase saltou de susto.

Não era costume a visita de alguém naquele horário. Assim, Augusto não fazia a menor noção de quem poderia lhe incomodar naquele momento, já exausto pelo fim do dia, após intenso trabalho.

E não era um trabalho rotineiro.

O rapaz, com aparência atormentada, “quatro-olhos”, cabelos escuros e pele parda, era professor de filosofia, numa escola ao sul da cidade, há cerca de uma hora e meia de onde morava.

Especialmente naquele dia, lecionou em três turmas, e fez correções de provas de outra. E à tarde, teve ainda uma advertência da diretoria da escola, em razão desta o considerar culpado pelas notas baixas dos alunos, o que teria provocado repúdio dos pais. Isso intensificou  no professor um sentimento de solidão e impotência quase esquizofrênica.

Ele percebia nas turmas a ausência de paixão pelo debate; o uso exagerado das tecnologias que aproximam quem está distante, mas afastam quem está perto; a forma bestial de se divertir e a  propagação das ideias sem qualquer conteúdo relevante…Enfim, aquela levitação rara da realidade que a filosofia oferece não era absorvida por eles, o que motivava a frustração do professor.

Ali, naquela noite, pouco antes da visita inesperada, tomou vinho, ouviu Alive and Kicking do Simple Minds, e pensou em sua mãe.

Domingo passado havia sido o aniversário dela, mas ele somente se lembrou do fato três dias depois. E ao ligar, o assunto pouco fluiu, pois ela estava um tanto magoada com a falta de lembrança do filho.

De toda forma, ao ver o horizonte noturno da cidade pela janela, no 8º andar do apartamento onde morava, ele sentiu necessidade de viajar, visitar sua mãe, e cumprir a velha ideia fixa de procurar Amanda e tentar mais uma vez explicar o velho mal entendido que havia feito a relação dos dois se romper, após um ano e meio de muita felicidade.

Na época, Augusto também saíra magoado da relação, mas passados oito meses desde a última tentativa de conversar com a moça, ele sentia que o correto a fazer era explicar os fatos pessoalmente, e aquilo o martelava, a saudade batia, a solidão o massacrava, o rosto dela aparecia em sonhos e ele acordava necessitando de seus beijos. Mas logo mudava de ideia, e acreditava que ela era quem devia desculpas pela falta de compreensão.

Na hora que a campainha tocou, Augusto enrolou-se na toalha jogada na cadeira ao lado, lavou rapidamente o rosto na pia e dirigiu-se à porta.

Seu coração palpitava: – talvez fosse notícia ruim! pensou em sua mãe…mas não deu tempo de treinar sua criatividade imaginando personagens, inclusive os fictícios, para lhe oferecer qualquer coisa à porta.

Abriu.

Era uma planta! Ali sozinha. Parecia sorrir e lhe pareceu bastante simpática.

A planta tinha caule forte, um tanto retorcido, em tamanho aproximado de um metro e uma grande quantidade de flores com tonalidade entre vermelho e rosa.

Dois envelopes a acompanhavam. Um deles branco e o outro preto.

Além disso, havia um envelope maior, no qual havia várias fotografias do nascer do sol, em vários ângulos.

Augusto olhou em volta, caminhou até o elevador, percorreu a vista pela escada, e não viu qualquer vulto.

Recolheu a planta e adentrou sua moradia. Lembrou-se que reconhecia aquele tipo de planta de algum lugar, mas não conseguiu recordar de onde.

Abriu o envelope branco e nele havia um bilhete. Percebeu logo que se tratava da letra de Amanda, um pouco tremida.

E se deparou com uma narrativa emocionada do romance dos dois, contando detalhes dos sentimentos de Amanda, de forma como Augusto jamais havia percebido.

Já o envelope preto, tratava-se uma carta de despedida, ao mesmo tempo em que Amanda lhe pede para que cuide da Rosa do Deserto que estava em sua frente.

Não deu outras explicativas.

As lembranças saltitavam na mente dele.

Relembrou a fase tão especial do amor que viveram e também veio à sua mente a recordação dos dois tapas que levou no rosto quando ela viu uma moça do colegial vestida na camisa dele e saindo de seu quarto, numa noite de terça feira.

Era a aluna que viera entregar um trabalho feito de forma tardia. Estava acompanhada de outra colegial, porém, ambas haviam sido agredidas por um assaltante na rua da casa do Professor e durante a agressão, o sujeito rasgou parte da blusa da garota, na hora abrupta em que subtraía seus pertences, o que a fez chegar à casa dele aflita e quase desnuda.

No momento em que Amanda chegava, uma das garotas havia saído à procura de outra roupa para aquela que fora agredida. E enquanto esta esperava, o professor lhe oferecera uma camisa.

Para Amanda, foi um grande choque aquela realidade visualizada. Parecia claro, como céu em dia de verão, que se tratava de uma traição.

Não o ouviu! Saiu aos prantos, fez as malas e retornou à cidade dos pais.

Augusto se sentiu muito ofendido com a desconfiança, a seu ver, totalmente descabida e exagerada de Amanda. Passou oito meses engolindo o orgulho. Ainda tentou ligar para ela na noite do ocorrido, porém foi bravamente repelido. Desde então, decidiu seguir a vida, mesmo sentindo muito a falta dela.

Porém, nada ainda fazia sentido.

A planta… as fotografias do por do sol…os dois bilhetes.

Enfim, foi dormir naquela noite sentindo mais frio do que costumava, preferiu ficar inerte. Imaginou que ela o procuraria ainda na manhã seguinte.

Mas isso não ocorreu, e Augusto seguiu em sua vida ingrata, esperando que alguma surpresa o escolhesse, como se a felicidade fosse banal e sobrevivesse à truculência.

Acordou com setenta e quatro anos. Sozinho.

Uma xícara de café ao lado da cama, suja há três dias. E o quarto cheirava a mofo.

A mulher que lhe ajudava com a limpeza não veio na última semana, pois estava adoentada.

Desejou morrer naquela hora e dormiu novamente.
Acordou com setenta e cinco anos, com a claridade do sol entrando pela janela. Lá fora ouvia o canto de pássaros.

Brisa suave.

Levantou-se, olhou para fora da janela e sua esposa cuidava de duas Rosas do Deserto. Ela, franzina, lançou-lhe um sorriso amável, e fez um gesto apontando para a mesa à espera do café da manhã, ali fora, junto às plantas e pássaros.
Lembrou-se da grande mudança em sua vida, quando há quase cinquenta anos atrás, saiu apressado para a rodoviária e desbravou a madrugada à procura de Amanda, indo em direção à cidadezinha onde ela se escondia.

Ela estava de malas prontas para ir a Turquia, onde iria trabalhar num grande hotel conhecido como Rosa do Deserto, assim chamado pela peculiaridade do amplo jardim onde a planta era cultivada com esmero. Era o símbolo do Hotel.

Amanda havia formado grande apego à planta, e inclusive já havia passado por um treinamento de quatro semanas para saber cultivá-la. Tomou-a como um simbolismo de sua nova vida.

Mas, na manhã de uma quinta-feira, surpreendente, Augusto redimiu-se de seu orgulho e salvou duas vidas do hospício.

Certamente, a atitude dele, que lutou contra seu eu egoísta e teimoso, não estava escrita, e poderia ter logrado histórias das mais diversas categorias imaginadas, caso tivesse resistido. Talvez o seu pesadelo tivesse se efetivado.

Mas ele sabia que sua felicidade estava ao lado dela.

Numa noite a mudança profetizou uma história de amor, jamais vivida.

Os sonhos percorreram um sentido conjunto e as Rosas do Deserto puderam ter motivos para a simpatia incrível que exalavam.

O pores do sol nunca mais seriam os mesmos ao final dos dias, porque podiam ser cada vez compartilhados de ângulos diferentes por aquele casal apaixonado, que a cada crepúsculo podiam refletir e imaginar onde estariam, caso não estivessem bem ali.

E eram os momentos em que se sentiam mais felizes, porque diante das infinitas escolhas que podiam ter feito, acertaram.

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