Do Medo de Escuro

O pôr do sol queda-se ao longe
Anunciando a noite desvelada
Os dedos finos, que dela se escondem
Dançam em novo verso de madrugada

Rápidos,  como se passam
As batidas dos nossos corações
Também os dias, uns após os outros
Afinam, nos destinos, novas canções

E tudo, mesmo desconexo, se arranja
Como que em teia, confuso e misturado
As ideias, também como os são
Hão de recolher da ordem um punhado

E da elucidação, que seja crédula
Para que a próxima noite que sobrevém
Faça sentido, e o canto da sereia
Não seja o assombro de ninguém.

Pesadelos

 

pesadelo

Passando pela vértebra o frio atônito,
Que o medo da solidão lhe sopra,
E um rompante gosto de fel e sangue
Numa imagem que jamais se cumpra.

Era pesadelo inscrito em suor,
Agonia latente em cada pálpebra.
A cama, com pregos afiados
E a casa toda em penumbra.

A cena de terror me fez pulsar
O coração pouco acostumado a emoções
Mas quando o paralisado corpo desperta…

Só nota a presença dos trovões
Infiltrando-se em minha alma, deserta…
…Incrédula, ao nada, a vagar.

Das Lembranças

core

É claro que a gente lembra
Daquelas músicas que ouvíamos junto
Próximo a algum cheiro de primavera
Eu sabia que as coisas mudariam
E temia o que a lua poderia trazer
Logo ao anoitecer
Naquele mesmo dia.

E como foram-se os anos!
Todas as lembranças se propulsaram
Juntaram-se a outras e também mudaram
Minha forma de pensar
Todo o sentimento vai se transformando
E onde quer que nos encontremos
Cabe a nossos passos serem mais fiéis
A tudo que o um dia planejamos.

Aqueles sorrisos que tivemos
Estão ainda em algum lugar?
Escritos, como promessas que se eternizaram…
O coração puro saberá perdoar?
Será que em outra vida nos reencontraremos?
“Muda, tudo muda…”
Será que nos reconheceremos?
Por mais que eu tente avançar
As correntes e espinhos estão sempre espalhados
Por onde eu tento trilhar.

Naquela hora primeira,
Onde meu amor me lembra quem eu sou,
Temo perder a glória que um dia esteve
Espalhada por todo o meu ser.

Ainda que não me seja permitido saber
Os rumores do futuro
Já avisto a queda do muro
Logo ali, ao crepusculecer.

Dessa Era Estranha e Crua

fios

Meu povo é tão distante
E o vazio continua latente
Talvez o que a gente sente
Seja mesmo tão diferente.

A graça da vida às vezes esmaece.
Procuro o fino brilhante
Sobre o qual ouvi cantarem
Mas, o amor perdeu seu rebanho
Cedendo a algum tipo de chantagem
Dessa era de tecnologia esquizofrênica
Que deixa esses meninos tão sozinhos:
Eles procuram nas coisas artificiais
A simulação perfeita de sonhos
Que me parecem tão banais.

Meu povo permanece tão distante
E o vazio reside aqui, latente
Talvez o que a gente sente
Seja cada vez mais diferente.

Mas não difere assim nosso temor
Quando a noite subsiste
Encarando a vida triste
No retorno do labor…

E nosso filho ainda não chegou
Da rua perigosa e escura
Assim como pulsa o sangue morno
Também pulsa o olhar materno aflito

-Libera esse nosso grito
Aqui, preso na garganta
Porque todo pássaro que canta
É sinônimo de liberdade
Ainda que da brevidade
Lhe seja tão prisioneiro

Sim, meu povo está cada vez mais distante
Mais enlaçado em virtuais correntes
Mas, no fundo, sinto que a gente
Não é assim tão diferente.

Dos Desejos e Realidade

existir

O que eu faço para ser feliz
No lugar onde eu quiser
Cortando o cabelo ou com ele comprido
E me ser permitido
A aurora boreal conhecer?

O que brota do amanhecer
Ainda é um brilho encardido
Mas eu quero ser o cupido
Da nova era, para transparecer
Nessa vida, algo bem explêndido
Rosnando de tanta inquietude,
Parturiente, inflado, amiúde
Soprando aquele inverno translúcido
Que a lua exala ao aparecer.

Pode um dia se saber
Que eu desejei ter tudo
Porém, o que não me consola
É o temor de perder os sonhos
Que são meu mundo.

Porque a liberdade existe bem aí,
Onde se permite:
“No vagar das horas que alguém nos tirar,
Façamos delas nosso alpiste”.

 

Do Tempo de Agora

Austero, cretino, amargo!
Distoa da projeção
Que um dia eu fiz
Puro encargo!

Esgotado e pálido
Do que devia ser.
Não foi bom aprendiz
Não aproveitou o tempo feliz
Que eu lhe dei.

Seu vestido preto rodopiou pela sala
E a profunda cicatriz
Que ele cobria
Não fora notada.
Não fora notada.
Não fora notada!

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